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EDITORIAL

É possível dizer o indizível? Esta pergunta, formulada no Boletim 03, retorna neste número a partir de pronunciamentos, que podem ser lidos sob a forma de uma conversa. Quem abre esta conversa é a Dominique Miller (ECF/AMP) que, na tentativa de situar a feminilidade entre duas margens, começa por interrogar de que forma se pode entender o teorema de Lacan “a mulher não existe”. Cleyton Andrade (EBP/AMP), consultando os “Rascunhos de um álbum de Infamiliar”, sinaliza que, diante do encontro com o feminino, a infamiliaridade emerge, não importando o lado em que se esteja na tábua das fórmulas da sexuação. Marcelo Veras (EBP/AMP), por sua vez, recorre a uma fábula coreana – A Vegetariana – e, entre letras, vem mostrar a proximidade dessa fábula com muitos textos lacanianos sobre o feminino, na medida em que, num encontro entre dois amantes, a mulher recusa a carne e o homem se recusa a amá-la por conta de um traço fetichista. Passando das entre letras para a entrevista, escutamos Márcia Rosa (EBP/AMP) enunciar que o título do XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano localiza o feminino numa posição intervalar entre o dizível e o indizível, o familiar e o estranho/infamiliar. Seriam estas as margens entre as quais é possível situar o feminino?

Vamos, então, ler o Boletim, consultando também os hiperlinks, sem esquecer que, num toque de poesia, vamos encontrar a tentativa de Leminsky de dizer o indizível a partir do neologismo “invernáculo”.

Analícea Calmon
Diretora do XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano

COMISSÃO CIENTÍFICA

HYPERLINKS

Iannini, Gilson. Estética, clínica e política em “Das Unheimliche”. Derivas analíticas, n.11.

Belo Horizonte: dezembro 2019.

http://www.revistaderivasanaliticas.com.br/index.php/estetica2

Cem anos nos separam do ensaio de Freud; cem anos separavam o ensaio de Freud do conto de Hoffmann. E, no entanto, o efeito da atual infamiliaridade de ambos desconcerta o leitor contemporâneo. “Pertence verdadeiramente ao seu tempo”, escreve Agamben na esteira de Nietzsche, “aquele que não coincide perfeitamente com ele nem se adequa às suas exigências e é, por isso, nesse sentido, inatual; mas, precisamente por isso, exatamente através dessa separação e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que outros, de perceber e de apreender o seu tempo”. Nossa realidade atual não é transparente a si. Nada como uma luz inatual dos textos freudianos para podermos, como vaga-lumes, viver em tempos obscuros. Afinal, vaga-lumes emitem luz, mas desaparecem na noite; estão sempre um pouco à frente de onde nossos olhos os surpreendem. É por isso que toda estética implica uma política. A clínica implica a ambas.


Entrevista com Eduardo Viveiros de Castro. Derivas analíticas, n.7.

Belo Horizonte: fevereiro 2018.

http://www.revistaderivasanaliticas.com.br/index.php/castro
Eduardo Viveiros de Castro: A inquietante estranheza? Sim, claro. Até atribuiria mais o Unheimlich àqueles encontros no mato em que você tem a sensação de que algo está errado; nada aconteceu, mas tudo mudou. A floresta está igual, mas de repente você entrou num mundo de uma subjetividade alheia.


Grossi, Lúcia. Filme: Um comentário sobre Repulsion (1965), de Roman Polanski. Derivas analíticas, n. 6.

Belo Horizonte: junho 2017.

http://www.revistaderivasanaliticas.com.br/index.php/lucia
Essa ideia do espaço íntimo nos leva ao texto de Freud O estranho.[1] A palavra em alemão Unheimlich contém Heim, equivalente ao house do inglês, que traduzimos como lar, casa; o que há de mais íntimo e familiar. Pois justamente o mais íntimo tem também sua face estranha, inapreensível e angustiante. Se tomamos o corpo como nossa morada, temos que reconhecer que experimentamos o estranho na nossa esfera mais íntima. O filme trata de uma experiência subjetiva que passa pelo corpo e faz ruptura na relação do sujeito com o mundo.


Antelo, Marcela. “Mulher honoris causa”. Correio Express. 17/02/2020.

https://www.ebp.org.br/correio_express/2020/03/17/mulher-honoris-causa-1/
Como uma ameba movediça, o fenômeno se furta, intangível, quando as armas da teoria pretendem fixá-lo em definições. Assim como a palavra bizarro [9] é bizarra, o Unheimlich, o inquietantemente estranho, é um conceito fantasmático que desata um efeito igualmente fantasmático. Sua fugacidade, quase uma palpitação, o revela como verdadeira substância do inconsciente em ato, sempre infamiliar.

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