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 Dominique Laurent*

Imagem: “O rapto de Proserpina” (detalhe), de Bernini. Fonte: inchiostrovirtuale.it

Imagem: “O rapto de Proserpina” (detalhe), de Bernini. Fonte: inchiostrovirtuale.it

No seu artigo de 1924 “O problema econômico do masoquismo”, Freud liga o masoquismo à pulsão de morte e ali distingue três aspectos: o masoquismo erógeno, o masoquismo feminino e o masoquismo moral. O masoquismo feminino comporta um paradoxo: Freud, de fato, fala isso a propósito do homem que se coloca numa “situação caracteristicamente feminina”, isto é, em posição de “[…] ser castrado, ser possuído sexualmente ou dar à luz”[1]. Isto desconstrói a anatomia e antecipa o problema no gênero. Ele não esperou Judith Butler para isso. De fato, esta perspectiva é correlativa ao que ele descobre em Anna, sua filha, de quem ele escuta fantasias masoquistas. Um pouco mais tarde, com seu artigo “Bate-se numa criança”, ele juntará o amor do pai à dimensão masoquista. Descobriremos, mais tarde, através de Anna e seus biógrafos, que a criança em questão era a própria Anna.

Para Lacan, a relação à pulsão de morte na mulher não decorre de seu masoquismo, mas da loucura feminina enquanto tal, que permite ir mais além dos limites que o homem se fixa por suas angústias de proprietário. Para as mulheres há, além da angústia de castração, uma loucura que decorre do não todo na função fálica. A obra de Lacan pode ser lida como uma grande enquete sobre a loucura feminina, que se inaugura a partir da tese sobre Aimée e continua ao longo de sua elaboração sobre o gozo feminino em Antígona, Sygne de Coûfontaine, os místicos, Medeia e Madeleine. São mulheres que ultrapassam os limites. Elas golpeiam os objetos mais caros do homem ou se fazem golpear até a morte. A morte aparece como o horizonte de um certo registro do amor e do gozo, mais além do falo. Essa proximidade já foi isolada no mito do rapto da jovem ninfa Perséfone, por Hades, o Deus dos infernos, prefiguração da colisão entre Eros e Thanatos, para retomar os termos freudianos. Esse mito se tornará um tema iconográfico. O laço sombrio entre a sexualidade feminina e a morte não cessará de fato de ser interrogado pelos pintores a partir do século XV. O romantismo acentuará o tema da jovem mulher e da morte, como o vemos com o famoso quatuor para cordas de Franz Schubert. O cinema também se apropriará deste tema mais tarde. Sem refazer a história do cinema, citemos “A morte e a donzela” de Roman Polanski.

 Golpear o Outro

As figuras de mulheres que são Madeleine, Medeia e Aimée ilustram um regime do mais além do falo, que precipita seus parceiros num abismo mortífero, até mesmo mortal. Madeleine Gide é daquelas que produziram uma devastação. Lacan utilizou o termo de devastação no sujeito feminino quando este é confrontado ao gozo feminino da mãe. Ele nota esse efeito na maioria das mulheres. É um fenômeno de estrutura. Ele pode se expressar de forma mais ou menos marcante. Depende do discurso no qual a mãe vem a nomear o mais além do falo; este discurso não é sem laço com o parceiro que ela escolheu, mas esse fica sempre mais aquém da tarefa a ser cumprida. O limite fálico no homem não o confronta da mesma maneira que na mulher ao ilimitado. Mas ele pode ser devastado por uma mulher quando esta toca de uma maneira ou de outra seu parceiro fundamental, que é o objeto a.

Gide é um exemplo. Ao queimar as cartas que Gide havia escrito a ela ao longo de sua vida de homem, Madeleine o visa. Ela destrói aquilo que lhe era mais caro no momento em que ele testemunha um amor que fez escândalo. Ele tinha encontrado o sentido do mundo vendo essa jovem chorar e se dedicou a encontrar as palavras para consolá-la. Ela destrói essa parte dele mesmo, extraída e perdida, cuja destinatária era ela. “Devastação de uma privação inumana”[2] que Gide chorou por muito tempo.

Há também Medeia, a mágica, a apaixonada, a criminosa, a mãe, a mulher. Ela é aquela que mata seu pai e alguns outros por amor a Jason, seu homem que é também o pai de seus dois filhos. Ela é aquela que, uma vez abandonada por Jason por sua rival Creusa, decide puni-lo numa loucura assassina. Ela é aquela que mata Creusa, Creonte que abre pra ela seu reino, e seus dois filhos. Único sobrevivente desta carnificina, Jason, a quem ela recusa o corpo dos filhos para dar a eles uma sepultura. A virada do amor ao ódio sem limites, pura expressão da pulsão de morte, quer de agora em diante o sacrifício de todos os objetos de amor e de desejo de Jason. Ela pode atingir seus filhos a partir do momento em que eles não possuem mais valor fálico e se tornam objetos para ela. O extremo do gozo feminino em suas consequências permitiu a Lacan dizer que “todas as mulheres são loucas”. Esse gozo feminino além do falo rompe as amarras com o Nome-do-Pai e a ordem simbólica. Privar Jason de seus filhos vivos e mortos, é privá-lo de toda filiação possível, de toda transmissão possível de seu nome.

O que dizer de Aimée e de sua passagem ao ato? Simplesmente poderíamos dizer que a passagem ao ato se inscreve no acme da certeza delirante de uma ameaça de morte sobre a criança que ela acaba de ter. Ele visa sua perseguidora mor, a atriz que constitui uma ameaça constante para a vida de seu filho. Se a relação entre os sexos não se escreve, a relação pai mãe deve se escrever. Para Aimée, isto se revela impossível. Tudo bascula quando o significante da paternidade é convocado. A certeza delirante é correlativa da única significação identificatória que ela pode atribuir à criança. Não se trata da equivalência criança-falo, mas sim criança-morta. Aimée enuncia, sem captar o alcance, a potencialidade criminal de seu delírio materno: “[…] eu temia muito, diz ela, pela vida de meu filho, se não lhe acontecesse mal agora, aconteceria mais tarde, por minha causa, eu seria uma mãe criminosa”.[3] Desvela-se assim, por trás das exações delirantes imputadas à atriz, a mãe criminosa. É o processo fundamental no qual se inscreve a relação ao Outro, reduzido à única vontade de um gozo mortífero. Este processo apoia-se nas coordenadas do próprio nascimento de Aimée, ligadas à morte acidental de uma irmã cujo prenome ela carrega e cujo luto não será jamais simbolizado pela mãe. O apego exclusivo da mãe e da filha, enodado pela morte, se encontra duplicado na relação que ela mantém com seu próprio filho, que ela sobrecarrega de cuidados inquietantes. Em sua tese, Lacan evoca “a perversão do instinto materno com pulsão ao assassinato”[4].  Nós encontramos, como em Medéia, uma relação à criança reduzida ao puro estatuto de objeto, parceiro real de gozo, de um gozo mortífero sem limites do qual apenas a passagem ao ato a separa. Lacan nota que o comportamento delirante poderia ser então compreendido como uma fuga para longe do filho e a cura como ligada à realização da perda de seu filho num processo de autopunição.

 Golpear-se

Sygne, Antígona e os místicos ilustram, por sua vez, um regime do mais além que os precipita num abismo mortal. No seminário A transferência Lacan se prende ao destino de Sygne de Coûfontaine, heroína da trilogia claudeliana. Ele qualifica sua morte de suicídio[5]. Sygne morre ao se colocar diante da bala do revólver de seu primo, que visa seu marido. Ela leva ao extremo aquilo que mal merece o nome de sacrifício. Lacan distingue aí três.  O primeiro se inscreve “no quadro de uma espiritualidade do sacrifício, na gratuidade do dom, na derrelição daquele que na obscuridade de seu ato se abandona a um Deus que não responde”[6]. É todo o sentido do ato I de O refém no qual aprendemos que ela se dedica à recomposição do patrimônio familiar dispersado. Nenhuma felicidade terrestre a se esperar. O segundo sacrifício reside na renúncia do primeiro pelo consentimento ao casamento com Turelure, premissa de sua morte que está por vir. É a renúncia àquilo que faz seu próprio ser. Nós estamos aqui mais além do quadro de uma espiritualidade do sacrifício. O não final de Sygne, qualificado por Lacan de “negativa última”, é não somente a negação de si, mas também a de um Deus susceptível de receber um sacrifício. O mais além que este não visa é “um além de toda teologia de um Deus retribuidor, um além de toda economia da redenção ».[7]

Nesse ponto Lacan distingue Antígona de Sygne. Antígona é idêntica ao seu destino e segue a lei divina que a conduz em suas provações até a morte. O Deus malvado da tragédia antiga se liga ao homem por intermédio da Até, o destino como aberração calculada do qual ele é o ordenador. Esse Deus malvado se liga à A do outro. « Esta Até do outro tem um sentido »[8]. Todo o destino de Antígona se inscreve aí. Sygne, num ato de liberdade, vai além de tudo o que a determina. Através de um simples não, Sygne se afirma mais além da submissão de uma Antígona ao seu destino. Lacan acrescenta “O que significa que o poeta nos conduza a este extremo da falta, à derrisão do próprio significante?”[9].  O destino trágico de Antígona, localizado por Lacan no seminário sobre a ética, numa topologia sadiana qualificada de entre duas mortes, se encontra aqui ultrapassado. A partir do momento no qual Antígona transpõe a entrada do túmulo, ela está suspensa numa zona entre a vida e a morte. “Sem estar ainda morta, ela já está riscada do mundo dos vivos. E é somente a partir daí que se desenvolve sua queixa, ou seja, a lamentação da vida”[10]. Ela evoca tudo aquilo que ela não terá:  hímen, marido, filho, amigos para chorá-la, sepultura. Para Antígona, “a vida só é abordável, só pode ser vivida e refletida a partir desse limite em que ela já perdeu a vida, em que ela está para além dela – mas de lá ela pode vê-la, vivê-la sob a forma do que está perdido”[11].

Sygne deixa a vida pra trás sacrificando aquilo que ela mais considerava, no caso dela, nula lamentação sobre a vida. O deus malvado da tragédia antiga é o ordenador do destino de Antígona, mesmo se ele a conduz à morte. Nesta perspectiva, ele a liga a um sentido e aos assuntos humanos. Com Sygne, nós estamos mais além de todo sentido articulado a um deus malvado. Lacan a designa com o termo mártir, não no sentido que lhe fora dado pela tradição cristã, mas no sentido dos místicos. É o abismo do gozo, aqui sob os auspícios da pulsão de morte, que não se articula mais a um deus ordenador do destino. É um abismo que abre a um amor que carrega os estigmas do “puro amor”.

Os místicos, nos termos do Encore, subverteram o amor do pai no sentido do não todo. Deus ama o místico em sua exceção. Essa exceção se manifesta nos excessos do horrível. As biografias espirituais relatam assim um número de mortificações extremas, torturas corporais, práticas ascetas, provações finais do inferno, tornado presente no encontro com um Deus ciumento e cruel. O amor do pai, no regime cristão, tem seu mandamento: “Amarás ao próximo como a ti mesmo”. Freud sublinhou aí o caráter exorbitante. Lacan prossegue, aí onde Freud se detém horrorizado diante da consequência do mandamento do amor ao próximo. Lembrando os extremos místicos de uma Ângela de Foligno, bebendo com prazer a água na qual ela acabara de lavar os pés dos leprosos; ou de uma Maria de Allacoque comendo os excrementos de uma doente, ele aborda Das Ding “como o gozo do meu próximo”[12]. O próximo deve ser aqui entendido como sujeito e objeto de gozo. Em Mais ainda Lacan vai ligar este gozo ao ser da significância que não tem outro lugar que não seja o Outro. Esta face do Outro, Deus dos místicos, é sustentada pelo gozo feminino que se inscreve numa relação com o A/ . A outra face de Deus como A é o lugar onde se inscreve a função do pai.

As formas contemporâneas da pulsão de morte

Interroguemos a maneira pela qual a relação irredutível das mulheres à pulsão de morte se revela no mundo contemporâneo. As mulheres, por serem não todas na função fálica, são mais sensíveis ao real que os homens. Face à falta, elas têm três recursos possíveis: o amor, a pulsão, o falo. Os fracassos do amor, quaisquer que sejam as suas formas, afundam a mulher num estado de aflição. Assistimos como a uma aspiração de seu ser num abismo que toma as cores da depressão.

O dolo na relação amorosa confronta o sujeito feminino ao ilimitado de A barrado que veste a pulsão de morte.  Todos os estudos colocam em evidência uma prevalência importante da depressão nas mulheres em relação aos homens, sem que se possa dar conta disso. Nós poderíamos dizer que o gozo feminino, com Lacan, o esclarece. Do lado da pulsão, o mais- de- gozar pode tomar emprestado diversos circuitos pulsionais mas, como ressalta J.A. Miller, a vontade de gozar, se deixada a seu curso livre, revela não ser nada mais que pulsão de morte.[13] A anoréxica, a bulímica, a compradora compulsiva, são exemplos.

A mulher pode, enfim, lidar com a falta pelo falo, passe ele pelo homem ou pela criança. Nesta perspectiva, os rearranjos do mundo contemporâneo favorecerão o zapping generalizado e enlouquecido das mulheres sobre o programa masculino que saberia realmente cativá-las? Assistimos, ao contrário. a um distanciamento sempre maior de homens e mulheres os conduzindo a uma solidão colmatada pela adicção sempre renovada do imaginário de um corpo remodelado pela ciência, o esporte, os programas anoréxicos, a cirurgia estética, a tirania do objeto de consumo, até mesmo a adicção de outras substâncias. Como encontrar aquilo que detém o apelo insaciável do gozo além do falo? As crianças o poderão mais?

Roman Polanski colocou em cena, com O bebê de Rosemary, o aspecto aterrorizante da mãe tomada pela empreitada do diabo, o que lhe custará o terrível assassinato de sua mulher grávida. É surpreendente constatar que Mia Farrow, a atriz deste filme, consagrará uma parte de sua vida a adotar crianças do mundo inteiro até que isso resulte na partida de seu companheiro, Woody Allen, com uma de suas filhas adotadas. Isso dá um limite ao enunciado: “Everybody says I love you”. O programa materno revela muitas surpresas. Deste ponto de vista a reprodução assistida, que é um avanço no tratamento da esterilidade, permite mais facilmente uma queda da criança falo e sua redução ao objeto a. Isto não é sem consequências para a criança. Nós já podemos ver como, sem a ajuda da reprodução assistida, a pulsão de morte atinge a criança reduzida a seu estatuto de objeto real através das mães infanticidas ou das human bomb, que são as mulheres grávidas no mundo terrorista.

As mulheres não têm outra escolha para fazer frente ao ilimitado do gozo, a não ser o uso do semblante e da « apalavra » no encontro com um parceiro sintoma, um Outro pelo qual alguma coisa do gozo pode tomar corpo. Retorna a elas a carga de fazer existir, de modo singular, uma por uma, este ser que não tem essência nem significante nem libidinal.

 

Tradução: Hercília de Oliveira
Revisão: Marcela Antelo

 

Originalmente publicado em: LAURENT, Dominique, Pulsion de mort au feminin, La Lettre Mensuelle, n. 284, Paris: ECF, Janeiro 2010. pp. 9-12.
*Dominique Laurent é psicanalista em París, AE (2000-2003), AME da AMP e da École da la Cause Freudienne – Paris.
O XXIII Encontro Brasileiro do Campo freudiano agradece à autora a disponibilização do texto para divulgação no Boletim Infamiliar.

 


[1] Freud, Sigmund. “O problema econômico do masoquismo”. IN: Neurose, psicose, perversão. Obras incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.p. 291.
[2] Lacan, Jacques. “Juventude de Gide”. IN : Escritos. p.770.
[3] Lacan, Jacques. Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade, 2a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011. p.158.
[4] Ibid. p.266.
[5] Lacan. Jacques. O seminário, livro 8. A transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. 1992, p. 272.
[6] Lebrun. J. Le pur amour de Platon à Lacan, Paris : Seuil, 2002. p.321.
[7] Ibid. p. 323.
[8] Ibid. p. 329.
[9] Lacan. Jacques. O seminário, livro 8. p.273.
[10] Lacan, Jacques. O seminário. Livro 7 “A ética da psicanálise”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1988. p.339.
[11] Ibid. p.339.
[12] Lacan. Jacques. O seminário, livro 8.
[13] Miller, Jacques-Alain. Les us du laps, [1999-2000], aula de 2 de fevereiro de 2000, p. 126. Inédito.
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