Tempo de leitura: 3 minutos

O tema da tradução da palavra alemã unheimlich para a língua portuguesa já se insere no debate sobre o impossível de traduzir. A tarefa do tradutor, como advertia Walter Benjamin[1], requer a renúncia ao desejo de preservar o sentido original, inesgotável e sempre mutante na linguagem, mas, sobretudo, o confronto com o ilegível e o incomunicável como tal.

Até recentemente, o leitor brasileiro de Freud contava com a tradução de das Unheimliche como “O estranho”. Além desta, a tradução “O inquietante”      desconsidera a ideia central do termo em alemão, que gravita em torno do estranhamento produzido pelo contato de algo que é, de algum modo, familiar.

A tradução de Das Unheimliche por O Infamiliar permite ao leitor esse deslocamento. A inquietação a que o infamiliar nos convoca é a da exigência de uma mudança de foco. Algo mais íntimo, familiar, do que se gostaria de admitir: o que abala minha certeza identitária não vem do exterior, do diferente, mas da alteridade, que é do próprio inconsciente que ali se apresenta no familiar que se torna estranho.

Esse texto de 1919 se insere no contexto da elaboração do conceito de pulsão de morte. Com os desdobramentos do conceito de real em Lacan, das Unheimliche adquire um caráter estranhamente atrativo, situado no terreno do além do princípio do prazer. Mas, afinal, o que isso significa?

Inicialmente, Freud articulou o infamiliar ao retorno do recalcado. Contudo, como aproximar o infamiliar ao que não é estritamente ligado ao retorno do recalcado? A inquietante infamiliaridade poderia ter a função de ocupar o lugar das formações do inconsciente e, como tal, recobrir a ação do recalque? Ou podemos dizer que a familiaridade, não eliminada, depõe contra o sucesso do recalque?

Lacan indica um estranhamento inerente ao viver uma vida desnudada em seu real. Também localiza o infamiliar em Hamlet, confrontado com a ruptura na relação fantasmática que sustentava sua realidade. No Seminário 10, uma inquietante estranheza surge diante da presença do objeto, ali onde ele não deveria aparecer, no Heim. No Seminário 20, localiza no gozo feminino o lugar da alteridade radical, da diferença “absoluta”, que desde sempre encarnou o infamiliar. Em Miller, encontramos o gozo em sua dimensão de real, unheimlich, articulado a das Ding, a Coisa, derivado do Nebenmensch, o próximo, figura suporte da subjetivação face ao desamparo inicial.

Quais seriam seus desdobramentos no ensino de Lacan, seguindo as vias abertas por J.-A. Miller, relativos ao inconsciente simbólico e ao inconsciente real? Isto é, à concepção de gozo opaco, não redutível ao simbólico?

Fabian Fajnwaks, no recente editorial da La Cause du désir, n. 102, dedicada ao tema Inquié     tantes étrangetés, chama a atenção de que o mundo no qual vivemos se transformou, ele mesmo, em um Infamiliar. Os fenômenos sociais e políticos, envolvendo diversas formas de segregação, fenômenos de massas, racismo, intolerância e violência, poderiam ser lidos também nesta perspectiva?

Uma literatura criadora de uma estética da experiência      poderia, ainda hoje, lançar alguma luz sobre uma psicopatologia da vida cotidiana e sobre uma clínica que se apresenta como infamiliar? Se sim, qual infamiliaridade ela seria capaz de capturar ou propositadamente deixar escapar entre os dedos?

Afinal, o que os analistas têm a dizer sobre a inquietante presença de das Unheimliche numa experiência de análise orientada pelo real ou, ainda, quando ela se torna estranhamente familiar?

Quais as implicações dessa clínica pensada a partir deste conceito? E quais efeitos epistemológicos deste conceito forjado a partir da clínica? Serge Cottet[2]      nos lembra que aquilo que os conceitos ganham em extensão, eles perdem em compreensão. Com isso diríamos que pode haver uma certa dose de sentidos antitéticos nos conceitos. A questão é: o que se faz com eles? O conceito, levado a seu termo, pode conduzir a um impasse da formalização. Nos interessa, justamente, o destino dado a tais impasses. Lacan tentou incorporá-los às condições da aplicação do próprio conceito. Tal reordenação lacaniana dos conceitos freudianos      permite interrogá-los, mais do que revisá-los. Tratar-se-ia de um conceito pensado não mais a partir de uma falta, mas de um furo que não deixa de constituí-lo. Ou seja, o conceito implicaria aquilo que é impróprio à captura conceitual. Das Unheimliche não é só a contração entre familiar e infamiliar: pode ser lido como um exemplo de um encontro infamiliar entre o conceito e o não-conceito. Mas, é preciso não recuar frente a esse conceito, sobretudo diante do real que ele não recobre.

Cleyton Andrade, Louise Lhullier, Maria Josefina Fuentes, Teresinha N. M. Prado.


[1] Benjamin, Walter. (2008) A tarefa do tradutor: quatro traduções para o português”. Belo Horizonte : FALE/UFMG.
[2] Cottet, Serge. Un bien-dire épistémologique. La Cause du Désir, n. 80. Nouvelle revue de psychanalyse. “Du concept dans la clinique. Paris : Navarin éditeur. 2012. p. 16-22.