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Ondina Machado

Lendo o título do Encontro, automaticamente, separo seus termos em duas duplas: o feminino com o infamiliar e o dizer com o indizível. Nesse texto tratarei da primeira dupla com o argumento de que o infamiliar é uma experiência do feminino.

A explicação da junção do feminino com o infamiliar aparece logo no texto do argumento escrito por Marcela Antelo e Iordan Gurgel. Nossos colegas contam a história do passeio de Freud por uma Red Street – uma rua de saliências. É nesse contexto que eles nos orientam a pegar a mesma rua e percorrê-la buscando outro tipo de saliências, saliências como ressaltos, relevos, desvãos. Nos dão os nomes do feminino em Freud: o fundo de garganta de Irma, Medusa, a louva-a-deus, a dupla mãe-puta e, por fim, a repetição como último termo da série, que, neste caso, não se refere a uma mulher. É assim que vejo surgir um percurso que nos leva da mulher ao feminino, mais do que ligado à mulher, o infamiliar se liga ao feminino. Este é o ponto que me interessa: o quê do feminino está para além da mulher. O que é que podemos extrair da mulher para pensar o feminino e servir como um certo norte da psicanálise de orientação lacaniana? Minha resposta é: o gozo feminino como paradigma para o gozo em geral. Mas vamos com calma!

A mulher como Outro:

No seminário 19, … ou pior, Lacan sustenta que a relação entre os sexos é impossível e o faz em um capítulo que tem como título “O que vem a ser o Outro”. Nas últimas páginas ele reclama que não conseguiu sair do Outro, não conseguiu chegar ao seu objetivo que era falar sobre o ‘Um’. Justifica-se dizendo que para falar do ‘Um’ precisa antes situar o Outro, mas ao fazer isso percebeu que o Outro é um ENTRE. Este ENTRE não é o centro, como poderíamos pensar, o centro da distância entre o ‘Um’ e o Outro ou entre o homem e a mulher. É um ENTRE deslocado do centro porque não está em referência a um espaço e sim de uma função. O ENTRE tem a função de se outropor [s’autreposer], se colocar em outro lugar. É nesta condição que o Outro é um ENTRE, ou seja, aquele/aquilo que se coloca em outro lugar, em Outra Cena. Lacan finaliza: “É curioso que, ao posicionar esse Outro, o que tive para enunciar hoje diz respeito apenas à mulher. É justamente ela que nos dá, dessa figura do Outro, a ilustração ao nosso alcance, por estar, como escreveu um poeta, entre o centro e a ausência”[2].

O poeta em questão é o belga, que adotou a cidadania francesa, Henri Michaux (1899-1984) e o poema é “Entre centro e ausência”. Não à toa, Michaux é conhecido como um poeta que trabalha com movimentos descentralizados, oscilatórios de passagem entre a presença e a ausência, o aqui e o alhures, entre um centro e seus limiares e limites”.[3]

Não foi a primeira vez que Lacan citou Michaux, ele também o fez em Lituraterra quando diz que ENTRE saber e gozo há litoral que vira literal[4]. Se pensarmos bem, esta concepção do ENTRE como uma descentralização, como deslocado, por fora, de outro lugar, não é nova. Em Lacan, percebemos um modo original de entender a psicanálise que, de certa forma, tem a marca de uma posição subjetiva. Assim como a expressão “não há” está presente em muitas formulações, o ENTRE, talvez seja a segunda expressão mais usada por ele para transmitir suas concepções: entre saber e gozo, entre desejo e gozo, entre sonho e despertar, entre demanda e desejo, enfim….

Assim, a mulher não se confunde com o Outro da linguagem – tesouro dos significantes – não se confunde com o Outro como corpo nem tampouco com o Outro como gozo. Neste caso o Outro que ilustra a posição descentralizada da mulher é o Outro como pura alteridade, como estranhamento em relação a uma norma, a norma fálica ou norma male.

Retomemos, então, a frase de Lacan no Seminário 19. Ao ilustrar a forma de presença da mulher entre centro e ausência ele faz menção à castração, que está para todos, e também à dupla barra que instaura a mulher como nãotoda ancorada no gozo fálico. Ela não está nem no centro, nem na ausência, sua relação com o falo é ex-cêntrica. Ela pode se localizar por ele, pelo falo, mas não é dele que lhe vem sua significação. Segundo Lacan, a mulher participa “singularmente” da função fálica. Vamos examinar isso de perto usando uma frase rica em reverberações.

Ao fazer a distinção sobre centro e ausência ele diz que o centro “é a função fálica de que ela [a mulher] participa singularmente, posto que o ao menos um que é seu parceiro no amor renuncia a tal função por ela, esse ao menos um que ela só encontra no estado de ser apenas pura existência”. [5] Agora vou desmembrar a frase para tentarmos apreender alguns detalhes para os quais tenho algumas ideias que gostaria de compartilhar.

Na primeira parte  temos que o centro “é a função fálica de que ela [a mulher] participa singularmente…” Lacan dá muito valor às palavras, ele não usaria esse “singularmente” à toa. Minha proposta é que ao dizer que a mulher participa da função fálica singularmente ele reforça que não há um modo de ser mulher, não há um modelo. O modelo é uma maneira de pensar a identificação como resultado do Édipo. Então, Lacan diz que mesmo tendo acesso ao modelo fálico, as mulheres gozam do falo singularmente, ou elas gozam falicamente cada uma a seu jeito. Ou seja, as criaturas inscritas pelo modo nãotodo, mesmo ao gozar fálicamente, têm uma maneira peculiar de fazê-lo, não só peculiar a uma categoria (nãotodo), mas peculiar a cada uma.

Na outra parte da frase destaco o trecho: “posto que o ao menos um que é seu parceiro no amor renuncia a tal função por ela, esse ao menos um que ela só encontra no estado de ser apenas pura existência”.

Interessante Lacan dizer que o parceiro da mulher é “o ao menos um”. Por que ele não diz o homem? Ele situa o parceiro da mulher como o “ao menos um” dando margem para pensarmos que a parceria não é designada pelos gêneros, mas sim por modos de gozo: um/a nãotoda faz parceria com um/a “ao menos um”. Mais radicalmente podemos pensar que sob o ponto de vista do nãotodo, seu parceiro ou parceira está na posição de todo. Observa-se isso na clínica, “a relação sexual que não há” sempre faz o parceiro/a ter essa exterioridade em relação ao seu próprio gozo, situa o parceiro/a em um outro planeta de gozo. Talvez as fórmulas da sexuação falem, hoje, menos do homem e da mulher e mais da parceria amorosa independente da composição de gêneros. Bem, é só uma tese a ser investigada.

Outra questão possível de ser extraída dessa frase é a que diz que o “ao menos um que é seu parceiro no amor renuncia a tal função por ela, esse ao menos um que ela só encontra no estado de ser apenas pura existência”. O destaque aqui vai para a renúncia: o ao menos um renuncia à função de ao menos um na parceria amorosa. Seria essa uma condição lacaniana para o amor? O ao menos um está no lado todo fálico das fórmulas da sexuação, é o que designa a exceção, o orangotango do Totem e tabu. Da posição todo não se ama, se goza. O amor precisa da falta, para amar há que se colocar alguém como causa de seu desejo, portanto, supor-se em falta. Por isso, Miller vai dizer que o amor feminiza, que só se ama a da posição feminina.

Situar a mulher como Outro é situar a mulher como paradigma do que passa por fora da norma, é falar da singularidade. Parece-me que é isso o que Lacan se esforça em destacar; não se trata de homem e mulher, mas de alguém que não se restringe à norma fálica. Para o bem e para o mal, com seu preço e seu sofrimento. Para estar neste lugar, se paga com a sua existência. O todofalico existe, o nãotodo ex-siste. É uma forma de existência de “ladinho”, deslocada do centro fálico.

O gozo de cada um

Duas coisas são importantes para entender o gozo como singular. A primeira é não se restringir à ideia de gênero, a segunda é saber que o gozo de que se trata não é o sexual.

O gozo sexual é justamente o que fica fora do gozo. No texto do argumento, Marcela e Iordan nos lembram a frase de Bassols que diz que “o feminino tem a virtude do neutro, mais além da diferença de gênero”[6]. Bassols, o autor, vai mais longe, chegando a dizer que o feminino é a-sexuado. Ora, ninguém vai pensar que estamos falando da mulher e dizendo que ela é assexuada. O a de a-sexuado é o a do objeto a, ou seja, um objeto que está fora da cadeia significante, portanto, fora dos gêneros. Os gêneros são efeitos de discurso. Uma criança quando nasce já está submetida ao discurso dos gêneros, ele expressa uma diferença significante – homem e mulher. Para a psicanálise, a diferença sexual não é a diferença significante.

Os gêneros dão nome a uma adequação à norma – ser homem ou ser mulher, mas isto não é suficiente para que o sujeito se reconheça nessas denominações. Para a psicanálise de orientação lacaniana não é o gênero, nem o comportamento o que faz alguém se dizer homem, mulher ou qualquer outra denominação. Como não há significante/gênero que dê conta do meu modo singular de gozar, eu dou a minha versão, de certa forma eu interpreto o meu corpo anatômico.

O a do objeto a quer dizer exatamente isso, é só um a, um oco, um qualquer coisa, um ‘não importa o quê’ em torno do qual tecemos as significações que nos incluirão na linguagem. É este o sentido do a-sexuado.

Minha ideia é que somente esclarecendo esses dois pontos – não é a mulher, não é sexual – que poderemos colocar o feminino ao lado do infamiliar, como mencionado no argumento do Encontro – o Umheimlich é o feminino.  O Umheimlich é uma experiência do feminino.

Novamente entre centro e ausência:

Voltemos à frase que situa a mulher entre centro e ausência, agora entendendo que não se trata da mulher, mas do nãotodo. O que é o centro? É a norma, o fálico. O que é a ausência? É o fora da norma, não o oposto à norma, mas o deslocado em relação a ela, portanto, o não totalmente regido pelo fálico. O sutil desta frase, ressaltado por Bassols[7], está em comparar dois elementos heterogêneos, ou seja, o centro não é correlativo à ausência, não é seu oposto. O oposto de centro é periferia, borda, termos que tratam de espaços, territórios. Ausência faz antinomia com presença, um modo de sim ou não. Centro e ausência não são comparáveis entre si, são como laranja e casa, nada a ver. Saber e gozo mantém esse tipo de relação, entre eles impera a descontinuidade porque não cabem na mesma lógica. A lógica do espaço não responde à logica do tempo.

No texto Lituraterra, Lacan nos mostra que entre elementos heterogêneos a impossibilidade de haver fronteira não impede que possa haver litoral: o mar não se mistura à areia, mas seus avanços e recuos sobre ela delimitam um litoral. O litoral não é fixo, não é definitivo, ele é móvel, dinâmico. É por isso que podemos dizer que a relação sexual é impossível, na medida em que todo e nãotodo são modos de gozo heterogêneos, não opostos. Não há simetria para haver oposição, sem oposição não há fronteira. Quando muito, todo e nãotodo fazem litoral, convivem sem se misturar. É desse modo que podemos trabalhar com uma experiência do feminino que, a princípio, está franqueada a todos os gêneros.


[1] O que segue sob esse título corresponde a primeira parte do texto apresentado no Seminário de Formação Permanente da EBP – Seção Bahia no dia 11 de novembro de 2020. Agradeço à Analícea Calmon e Sonia Vicente pelo convite. O acesso à apresentação completa pode ser feito por https://www.ebp.org.br/ba/2020/11/19/seminario-de-formacao-pemanente-o-infamiliar-uma-experiencia-do-feminino/
[2] Lacan, J. O seminário, livro 19: …ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p.117.
[3] Souto, Andrea P. B. Henri Michaux e a construção do estilo nas instabilidades do sentido: uma poética de limiares e limites. Tese. Departamento de Linguistica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, SP: 2009.
[4] Lacan, J. “Lituraterra”. Em Outros escritos. Rio de Jneiro: Zahar, 2003, p.21.
[5] Lacan, J. O seminário, livro 19: …ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p.117.
[6] Bassols, M. Lo femenino, entre centro y ausencia. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2017, p. 43.
[7] Idem Bassols, centro e ausência, p. 206-207
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