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Paulo Henrique Britto

Imagem: Instagram @artbasel

Antes era mais fácil — sim, porque era

mais difícil, havia mais em jogo,

e o tempo todo se jogava à vera.

Precisamente: mais difícil, logo

 

mais fácil. Porque sempre se sabia

de que lado se estava — havia lados,

então. E a certeza de que algum dia

tudo teria um significado.

 

E nós seríamos os responsáveis

por dar nomes aos bois. Havia bois

a nomear, então. Coisas palpáveis.

Tudo teria solução depois.

 

Chegou o tempo de depois? Digamos

que sim. E no entanto os nomes dados

não foram, nem um só, os que sonhamos.

Talvez porque sonhássemos errado,

 

talvez porque, enquanto alguns se davam

ao luxo de sonhar, outros, insones,

imunes, implacáveis, se entregavam

à tarefa prosaica de dar nomes

 

sem antes os sonhar. E, dia feito,

agora tudo é fácil. E por isso

difícil. Não, a coisa não tem jeito.

Nem nunca teve, aliás. Desde o início.

 

Pós”
in Formas do Nada
Cia. das Letras, São Paulo, 2012
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