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Imagem: Leonilson - medium.com

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Irene Kuperwajs

Podemos dizer que uma análise é uma prática também habitada pelo silêncio? Essa é a pergunta que tentarei responder.

No silêncio, há ausência de palavras, mas, ao mesmo tempo, há presença. Há distintos silêncios. No dicionário, encontramos o silêncio relacionado com o mutismo, com a insonoridade, com a quietude, com a discrição, com o calar-se, com a boca fechada… Há silêncios que falam, assim como há palavras que não dizem nada. Há silêncios que demandam. Há silêncios que matam, outros que provocam. Há silêncios ligados à impotência, à covardia, à prudência. Há silêncios repressivos. Há silêncios que libertam. Há silêncios que angustiam.

Podemos dizer que o silêncio atravessa a psicanálise desde suas origens e sempre está presente de alguma maneira em uma sessão. Lacan diz que “o discurso é sem palavras”, sublinhando que, quando falamos, gozamos. Ele não destaca o querer dizer da comunicação. Nessa perspectiva, a “apalavra” foi definida por Miller como um monólogo dominado pela pulsão, no qual se trata de um gozo autista; e o silêncio como “o que está no cruzamento de caminhos do analista e do que chamamos as pulsões”[1]. Há, então, o silêncio do analista e há o silêncio das pulsões. Mas veremos que não são o mesmo silêncio.

Freud faz menção ao silêncio no encontro com uma de suas primeiras pacientes: quando ele a interpreta sem cessar acerca do que lhe passa, ela pede que ele se cale. Entende que se trata de escutar.

Também assinala que, quando as associações livres do paciente param, esses silêncios estão ligados à transferência com o analista. Ao mesmo tempo, em algumas ocasiões, relaciona o mutismo com a pulsão de morte. E lembremos quando nos conta que “cala”, a ponto de mencionar a sexualidade dos turcos e, depois, “fica sem palavras” no momento de nomear o autor dos afrescos de Orvieto. Falamos, já com Freud, das diferenças entre “calar” e o “ficar sem palavras”. O calar tampona, vela. Mas o silêncio também pode desvelar o furo da sexualidade.

Um pós-freudiano destacado por Lacan: R. Fliess

  1. Fliess, filho do famoso Fliess com quem Freud trocou correspondências, escreveu um artigo chamado “Silêncio e verbalização. Um suplemento à teoria da regra analítica”, em 1949. Este foi citado por Lacan em 1953 [2], para se referir às palavras e à linguagem em relação ao corpo. Fliess estuda, na análise, a conexão entre palavra e gozo, através dos silêncios. Distingue três tipos de silêncios que observa clinicamente e diz que são interrupções de uma linguagem semelhantes às pausas ou silêncios de uma partitura musical. Há o pequeno silêncio normal, “uretral”, no qual o paciente parece ter esquecido a regra analítica e interrompe a fluidez das palavras. O “silêncio anal” alude aos pacientes que se calam, retêm palavras, estão sujeitos a uma inibição. O sujeito não consegue retomar as associações. Mas o pior, segundo ele, é o “silêncio oral”, que parece interminável. É um mutismo que dá conta de uma impotência para falar. Lacan menciona Fliess precisamente por essa relação da pulsão à palavra que pode tomar valor de gozo segundo os diferentes estados libidinais mencionados por Freud, e sinaliza que, quando o valor de gozo infiltra a palavra, e isso se repara melhor no silêncio, a pulsão a cala. No silêncio há a inibição da satisfação que o sujeito experimenta na produção do fluxo de palavras.

Tacere e Silere

Lacan distingue, em “A lógica da fantasia” [3], tacere e silere. Diz que “Taceo não é Sileo” e que a fronteira entre ambos é obscura, mas se apoia na definição do sujeito na relação com a linguagem. Taceo significa calar-se, silenciar em si algo existente, uma palavra não dita. O calar não é igual ao silêncio. Quando a demanda cala, a pulsão começa, o ato de calar-se não liberta o sujeito da linguagem, o silêncio não está por fora da linguagem, não é anterior ao grito. Contudo, o silêncio de calar-se pode ser o de uma decisão de não falar ou efeito da repressão ou da inibição. Enquanto que sileo se relaciona a algo nunca advindo, ao vazio que nos constitui, ao silêncio estrutural das pulsões. Podemos pensar que no tacere do começo pode haver a busca de sentido e de um ideal totalizante. Mas, ao final de uma análise, como fica demonstrado em muitos testemunhos de AE, o silêncio já não está ligado a uma possível simbolização, mas é o silêncio do próprio vazio.

Silêncio que habita a linguagem e no qual se marca a estrutura mesma, enquanto mostra o impossível de dizer.

O silêncio do analista

Mencionava ao início, como o silêncio está no cruzamento de caminhos do analista e da pulsão.  Podemos dizer que o analista é quem fica em silêncio, cala-se para que o analisante fale. Disso se queixam os pacientes, de que o analista não fala. Lacan dizia que “frequentemente o analista crê que a pedra filosofal de seu ofício consiste em calar-se”[4], mas também que o analista é livre para falar sem regras e que o limite à palavra é de outra ordem[5]. Há certa ética do silêncio que se articula a uma ética do bem dizer. De alguma maneira, trata-se de colocar um limite ao monólogo autista do gozo. O analista também fala a partir do silêncio e podemos agregar que, de alguma maneira, o segredo, a virtude da interpretação, é resguardar aquilo que não se pode dizer. O silêncio é, no discurso analítico, o lugar de onde se denota o impossível, é a condição da interpretação. E ainda que o inconsciente interprete melhor que o analista, não se trata de que o analista se cale e não intervenha, mas de fazê-lo de modo diferente do inconsciente. Lembro-me de uma menina que atendi e que, diante da morte do pai, entrou em mutismo e chupava o dedo na sessão. A maneira de retirá-la de seu silêncio foi falando com a voz muito baixa. Tratava-se de ir ganhando desse silêncio; tocar com a presença, com a interpretação, não mediante um ativismo, esse silêncio das pulsões. O silêncio do analista convoca o dizer analisante, convoca o objeto a. Essa é a função crucial do silêncio na experiência analítica.

Nas conferências que Lacan dita em Bruxelas, em 1960, o silêncio aparece em relação a sua prática e à ética: “…logo terá passado metade de sua vida a escutar vidas, que se contam, se confessam. Ele escuta. Eu escuto. Dessas vidas, portanto, que já há quatro septenários escuto confessarem-se à minha frente, nada sou para pesar o mérito. E um dos fins do silêncio que constitui a regra da minha escuta é justamente calar o amor. Logo, não trairei seus segredos triviais e sem igual. Mas há algo que gostaria de testemunhar. Nesse lugar que ocupo e onde almejo que minha vida acabe de se consumar, é isto que permanecerá pulsante depois de mim, creio, como um resíduo no lugar que terei ocupado. Aquilo de que se trata é uma interrogação, inocente se posso dizer, ou mesmo um escândalo, que se formula mais ou menos assim…”[6]

Lacan destaca três valores do silêncio como regra da escuta analítica. Primeiro, para o analista, trata-se de escutar e desse modo cala-se o amor. É por seu silêncio que se supõe ao analista seu saber e o amor surge como efeito da escuta. O segundo é “não sou a pessoa para julgar a virtude dessas vidas”, suspensão de todo juízo moral do analista que não é um exemplo nem um modelo a se identificar. Por último, não trair os segredos é um dever do analista.

Podemos pensar que quando há silêncio, o impossível de dizer se satisfaz substitutivamente com o objeto da fantasia. Mas constatamos que “o impossível de dizer não leva o analisante ao silêncio, mas a uma mudança de discurso. Leva a deixar a associação livre, mas para retomar a palavra na interpretação, desde o lugar do analista, no passe, como ensinante” [7].

Então, sabemos da relação entre o silêncio e o gozo. O gozo não fala.

Mas uma análise pode ser a via para enlaçar esse silêncio – às vezes sintomático – ao Outro. Será na perspectiva do sintoma, livre da fantasia, quando o Outro começa a ser destituído, que esse silêncio se desnuda e o sujeito pode escutá-lo e bem dizê-lo, já sem tanto horror. Trata-se, ao final, de suportar o silêncio do vazio que nos constitui, o silêncio da estrutura.

Tradução: Daniela Araújo
Revisão: Elisa Alvarenga
Irene Kuperwajs é psicanalista em Buenos Aires. Membro da AMP e da EOL. AE em exercício (2019-2022).
O XXIII Encontro Brasileiro do Campo freudiano agradece à autora a disponibilização do texto para divulgação no Boletim Infamiliar.

Notas
  1. Miller, Jacques-Alain [1994]. Silet, os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
  2. Lacan, Jacques. “Função e campo da palavra e da linguagem”. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
  3. Lacan, Jacques. O Seminário, livro 14 “A lógica do fantasma”, aula de 12 de abril de 1967. (Inédito).
  4. Lacan, Jacques. Conferências nos Estados Unidos.
  5. Lacan, Jacques. “A direção do tratamento”, em Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
  6. Lacan, Jacques. “Discurso aos Católicos”. Em: O triunfo da religião. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, p. 14-15. (Devo esse encontro com o texto de Lacan à Brousse, M. H.: Seminário “Cómo opera el psicoanálisis”, NEL, Guayaquil, 2000).
  7. Brodsky, Graciela: “Contra el silencio”. Em: El Caldero de la Escuela, n. 51, Escuela de la Orientación lacaniana, Buenos Aires, maio de 1997.
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