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Despertando cada vez mais para a sensibilidade da cultura coreana, convido vocês a lerem a fábula em três partes da escritora Han Kang, A vegetariana. A Coreia do Sul me parece um dos países que mais representa o choque de dois modos de viver o gozo do objeto na mesma cultura, como vazio e como excesso. O que os artistas coreanos parecem insistir em revelar é precisamente os restos da miraculosa transformação coreana das últimas décadas. Estes restos são explorados, como todos puderam ver, no excelente filme Parasita.

A fábula de Kang traz um outro aspecto da contradição coreana, a solidão dos sexos no declínio das tradições. O que acontece quando uma mulher completamente submissa, após um sonho, subitamente se recusa a comer carne. Apesar de pequeno, o livro traz uma explosão de possibilidades de leitura. Em um país asiático com um contingente enorme de cristãos recusar a carne em uma cena em que o pai força a filha violentamente a comê-la não deixa de levantar a questão da incorporação e da recusa do corpo e do sangue sagrados.

Contudo, se a recusa radical da mulher leva a uma explosão de violência e loucura na primeira parte, é na segunda parte que irrompe um erotismo dos mais intensos nos livros atuais. Essa é parte que mais me impressionou pela proximidade com muitos dos textos lacanianos sobre o feminino. É quando os amantes, cada um a seu modo, se encontram sexualmente após suas renúncias. A mulher recusa a carne, o homem recusa a amá-la por um traço fetichista, uma mancha de nascença mongólica. Nus, ambos se fusionam como corpos que são apenas superfícies para o desenho de estampas em suas próprias peles. Eles se tornam uma obra de arte.

Não se trata do corpo histérico de uma mulher, nem dos pedaços de corpo fetichista de um homem, os dois personagens se exilam dos engodos da castração simbólica em um campo onde nada mais parece ter sentido, eles se tornam corpo de pura letra.

Kang, pela letra, faz a relação sexual existir, mas ela é efêmera como uma estrutura em batimento, um eclipse no universo fálico. A terceira e última parte mostra a deriva dos personagens, perdidos em um mundo cuja impostura fálica não tem mais sentido, os semblantes sociais parecem caricaturas, o mestre, representado pelo discurso médico, tenta impor sua verdade, assim como o pai e o marido o fizeram, mas o que parecia impotência revela finalmente sua impossibilidade.

O livro é curto, poucas páginas, passei um bom tempo tentando entender de onde vinha sua profundidade. Então percebi que era justamente pelo fato de que toda a trama não está nas palavras, mas na forma. Como sempre, é a arte ensinando aos psicanalistas.

Marcelo Veras[1]

 


 
[1] AME da EBP e AMP.