Tempo de leitura: 4 minutos
Paola Salinas
EBP/AMP
Imagem – Instagram @jaackins

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O mote para este texto, psicanálise e literatura, foi tomado na perspectiva do recorte expresso no significante: ressoar.

Um antes…

Pensar a literatura e alguma conexão com a psicanálise, é quase automaticamente remeter-me ao feminino. Como leitora sempre fui tocada pelo feminino nos livros que lia, nas letras que compunham histórias, que transmitiam algo que ainda não era claro.

Hoje posso dizer que essa leitura ocorria primeiramente pela via da identificação, ou da tentativa de localizar uma identificação possível. Tudo que dizia respeito ao feminino, quando este ainda era sinônimo de mulher, me interessava.

Ao propor o termo ressoar, conecto de outro modo a psicanálise, a literatura e o feminino, mais próximo de um laço, ou de uma rede tal qual Guimarães Rosa nos ensinou[1].

Não se trata mais tanto da via da identificação, embora ela possa ocorrer. Há um pequeno giro entre identificar-se e a ideia de ressoar.

A hipótese é que isso que ressoava e ressoa tem uma relação com o feminino. Escolhi localizar assim esse efeito, destacando-o da leitura de Marguerite Duras, Clarice Lispector, entre outras, de uma à outra, várias vezes, nenhuma definitiva.

Contudo, permanecia a questão de como se dava essa transmissão, com a qual me sentia concernida ao ler tais autoras. Tratava-se do que lia e reconhecia, desajustado de uma identificação, ainda que naquele momento inicial pudesse aportar alguns sentidos. Ocorria algo fora do sentido, de fato.

Ainda que o ressoar, pensado aqui como essa transmissão, não remeta diretamente à singularidade, talvez possamos pensar em uma transmissão possível de uma à outra, para além da identificação.

Essa expressão porta uma espécie de segredo feminino que poderia nos fazer pertencer a um coletivo…, mas a referência que me orienta para cernir esse “de uma à outra”, como disse, é a rede de Guimarães Rosa, que se define pelos furos. Ainda assim, o que haveria de feminino nesta expressão, que deixa entrever um “entre mulheres”?

Nesse quase impasse, a língua materna vem em meu auxílio, a partir das palavras de Bassols[2] em sua fala no teatro em San Sebastian: “Lo feminino es neutro”. Desconectando o feminino da mulher.

Em espanhol Lo feminino, não equivale ao artigo masculino definido de ‘O feminino’ em português. Se quisermos dizer ‘O feminino’ em espanhol teríamos que dizer ‘El feminino’ e não ‘Lo feminino’. Bassols aponta o feminino para além dos gêneros.

Indizível

Ser leitora de determinadas mulheres, ou de textos sobre mulheres, independentemente do sexo ou gênero dos autores e personagens incluídos, é radicalmente diferente da possibilidade de que eu mesma venha a escrever a singularidade do feminino que me habita e desabita.

Há diferença entre ler e escrever.

Como leitora posso sentir o ressoar de uma transmissão, que inclui um para além do sentido, esse é justamente o efeito da poesia. Ressoa um esforço de dizer, de bordear o indizível, e isso se transmite. Em outra ocasião[3] comentei que algumas leituras se esquecem, mas marcam, e podem se fazer presentes justamente quando ressoam, não tão articuladas ao nome ou a um sentido.

Contudo, o singular do meu gozo, da marca da língua em meu corpo, não está contemplado nessa transmissão. As histórias que Duras conta não tem relação com minhas histórias, se posso me expressar assim, o que consigo dizer é: é outra mulher.

No que concerne à singularidade é preciso um passo a mais. Esse passo seria a escrita?

Será a partir da linguagem e do significante, que o singular poderá vir a ser escrito, o que não deixa de surpreender, por se tratar do incomparável em cada um e que não se define em relação a outro elemento, como ocorre na linguagem, que se articula pela diferença significante. Bassols nos ajuda a pensar este aspecto ao falar do “espaço de intersecção entre a palavra dita e a letra da escrita (…) apenas abordável como indizível e impossível de escrever, onde cada dicotomia fracassa, se fratura, mas também onde cada termo obtém sua identidade de ser, mais além das oposições dicotômicas”[4]

Podemos pensar em termos de uma escrita que deixa respirar àquilo que ela não consegue conter, furos de Guimarães, poros como Gabriel Racki nomeou em um dos argumentos para o X Enapol, ou respiros como costumamos dizer em português.

Se seguirmos Bassols[5] “a letra habita a própria palavra dita como seu suporte (…) e podemos transmiti-la mais além de que saibamos lê-la ou não le-la”.

Do ponto de vista do parlêtre, algo poderá se escrever sem o estatuto de última palavra. E para alguns isso só é possível pela via da sua própria análise.

 


[1] Rosa. G. Tutaméia: terceiras estórias. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 2001: “rede é um monte de buracos amarrados com barbantes”.
[2] Bassols. M. “Lo feminino más allá de los géneros.” Conferência, SCF San Sebastián. 27 de fevereiro de 2020. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=eG2gPROW590&list=PLtR_NyEau3CZyoyZ6jBIqjuyLtkBib3yq&index=9&t=1091s Acesso em junho de 2020.
[3] Salinas P. “O que não se pode falar deve-se calar? Da narrativa à poi esis do indizível”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=psKf3mG4glc&list=PLtR_NyEau3CbD6Czt4UxAEZ2kIFSa7uNF&index=3&t=3s
[4] Bassols, M. Isak Dinesen, a feminilidade e a letra. Disponível em: https://www.encontrobrasileiro2020.com.br/isak-dinesen-a-feminilidade-e-a-letra-1/ Acesso em 10 de janeiro de 2021.
[5] Bassols, M. Id. Ibid.
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