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Fernando Vitale*

 

Introdução

O convite para escrever em Virtualia na ocasião dos 100 anos da publicação original do texto escrito por Sigmund Freud sobre “O infamiliar”, me deu a oportunidade de voltar a percorrê-lo seguindo nesta oportunidade alguma das indicações que podemos extrair das elaborações realizadas por Lacan no seu último ensinamento. Estas últimas acredito que podem nos permitir por sua vez, reler sob uma nova perspectiva as já clássicas elaborações que Lacan realizou sobre o particular no Seminário que lhe dedicou a angústia.

A primeira coisa que podemos afirmar é que, sem dúvida, ler detalhadamente o texto de Freud sobre “O infamiliar”, nos brinda uma oportunidade única para nos acercar ao que podemos considerar como o inigualável do estilo da indagação freudiana.

Comecemos pelas primeiras linhas onde Freud nos introduz ao domínio onde pretende incursionar com seu texto:

O psicanalista apenas raramente se sente estimulado a investigações estéticas, mesmo que ele não restrinja a estética à doutrina do belo, mas a descreva designada como a doutrina das qualidades do nosso sentir[1].

Aclara então que se isso é muito raro, é porque o analista trabalha em geral em outros estratos da vida anímica.

Façamos uma primeira pausa nessa referência. Sem dúvida com isso, Freud nos coloca que não é que ele se interesse no tema por uma questão de interesse pessoal – pelo contrário, ele se reconhece pouco sensível diante do que denomina essa particular qualidade do sentimento – senão que vai fazê-lo enquanto analista. No entanto, o que autoriza a um analista a se intrometer nesses domínios tão distantes, pelo menos em aparência, do âmbito original onde nasceu e se desenvolveu sua prática? – e fundamentalmente, que interesse teria se acercar a essa particular qualidade de nosso sentir?

Deixaremos isso em suspense pelo momento, não sem antes lembrar o seguinte. Surpreendentemente, no Seminário sobre “O sinthoma” encontramos Lacan propondo que o “inquietante estranhamento” – tradução francesa do alemão unheimlich – é um efeito que provem incontestavelmente do imaginário[2]. Podemos assim agregar que Lacan mesmo propõe, tomando como referencia a confidencia que deixou Joyce acerca do espancamento sofrida na sua adolescência, que apesar da imagem confusa que temos de nossa relação com o corpo e da que provém todo o que se tem tentado elaborar sob o nome de psicologia, em dita relação há incontestavelmente algo psíquico que afeta, que reage quando não está desprendido como o que ocorreu a James Joyce[3]. Qual é então esse particular modo de afecção do corpo que ficou sedimentado em alíngua sob a expressão unheimlich?

Além da angústia de castração

No Seminário 10 Lacan vai propor, nem más nem menos, que o texto de Freud sobre o Unheimlichkeit constitui o elo indispensável para abordar de maneira mais precisa a questão da angústia. Ele diz assim: “Assim como abordei o inconsciente mediante o witz abordarei este ano a angústia pelo Unheimlichkeit[4].

Pois bem, isso é clave se nos levarmos em consideração que uma das questões centrais que Lacan vai desenvolver nesse seminário, é justamente a de colocar em questão o modo em que Freud deixou articulado o que para ele constituiu na sua prática seu ponto de chegada, o tope impossível de atravessar ao que denominou, angustia de castração.

Este ponto requer uma precisão que considero fundamental. O que Lacan vai colocar em questão não é o fato, tal como Freud faz referência, senão que propõe, que não devemos esquecer que esse fato é algo extraído da experiência do neurótico. A questão então é dirimir se esse limite deve ser considerado estrutural ou se somente é assim para o neurótico. Se esse fosse o caso – como vai postular Lacan – o trabalho a realizar, é encontrar as ferramentas adequadas para que a elaboração analítica não faça do limite do neurótico seu próprio limite conceitual. Considero que essa bússola é algo de grande importância em nossos debates atuais.

É no plano do questionamento do complexo de castração onde nossa exploração concreta da angústia nos permitirá estudar o passo possível. O estudo da fenomenologia da angústia nos permitirá dizer como e por quê[5].

A chave será encontrar os instrumentos que permitam dar à angústia o que é da angústia e dar à castração o que é da castração.

Como precisa Miller:

Deveria se esperar que no coração de um Seminário que se intitula “A angustia”, estivesse a angustia de castração, que a angustia pudesse ser abordada a partir da castração, que o ensino de Lacan tinha colocado em relevo como uma função eminente e estruturante de toda relação de objeto. Exagero, mas não encontrarão em Lacan, que seja a ameaça do pai o que desencadeia a angústia[6].

Então, como é que encontra Lacan no “infamiliar” um apoio chave para seu projeto quando, o texto princeps no qual se apoia Freud é, justamente, O Homem  da areia de Hoffman?

Cito a Freud:

Ainda que esta breve síntese não deixe subsistir nenhuma dúvida de que o sentimento do infamiliar adere diretamente à figura do homem da areia, vale dizer, à representação de ser despojado dos olhos. […] Estes traços do conto, como muitos outros, parecem arbitrários e sem significado quando recusamos a  ligação da angustia relativa aos olhos com a castração e se tornam  plenos de sentido quando se substitui o Homem da areia pelo temido pai, de quem se espera a castração[7].

O que Lacan vai questionar é precisamente essa última interpretação. Ele o fará com base na cena chave de todo o conto, naquela em que o professor Spalanzani arremessa ao peito do herói Nathaniel os olhos da boneca Olimpia – de quem este último se encontrava loucamente apaixonado – os mesmos que um instante antes o herói via com horror no solo banhados em sangue e o olhando fixamente, lhe brindando ao mesmo tempo a revelação atroz de que esses olhos não eram senão os seus.

Como dar conta então dessa particular qualidade de nosso sentir mediante o qual podemos experimentar que o mais familiar (heimlich) devém ao mesmo tempo o mais estranho (unheimlich)?

O que não é especularizável

Como propôs Jacques-Alain Miller, no Seminário 10, Lacan se esforça em nos apresentar uma fenomenologia do objeto angustiante que resulta verdadeiramente apaixonante. Como dizemos, ali: “Lacan vai procurar esse objeto que angustia no próprio Freud, em seu texto    sobre “O infamiliar”, no qual ele diz precisamente que explora, que tenta encontrar o núcleo daquilo que angustia[8].

Muito bem, mas, o que é o que encontra Lacan nessa indagação? O que ensina a experiência do estranho é que, do que se trata é da perturbação do campo imaginário pela brusca aparição no seu seio de algo justamente não especularizável. Nesse instante: “O objeto da angústia como objeto ansiogênico, não-especularizável, é paradoxalmente especularizável, o invisível é entretanto visto” [9].

A cena do Homem da areia à qual fizemos menção anteriormente, resulta em si mesma paradigmática. O clima do estranho o encontramos no instante em que o herói vê seus “próprios” olhos enquanto separados de seu imaginário corporal.

Esse objeto separado não é outro que o olho enquanto órgão que condensa a estimulação pulsional e que por estrutura resultará inintegrável e, em contradição, permanente com o investimento narcisista.

Se esse movimento lhe resulta fundamental a Lacan para por em questão o fim de análise freudiano e seu limite constitutivo, é porque a experiência da angustia lhe permite distinguir dois modos da falta: aquela que anotamos (-φ) (falso buraco), e a que anotamos como a (buraco real). A articulação dos objetos da pulsão ao campo da lei e a simbolização fálica fazem que o neurótico, até o final de sua análise, interprete a angustia em termos de castração, pelo que, o Outro não poderá aparecer sempre, senão como o agente que ao mesmo tempo que proíbe o gozo, sustenta o Ideal da consumação genital[10].

No corpo, fora do corpo

Considero que em “A Terceira”, justamente no apartado ao qual J.-A. Miller lhe colocou como título “O corpo na economia do gozo”, Lacan introduz algumas referências que podem nos ajudar a prosseguir com a indagação iniciada no Seminário 10.

O recurso da nova escritura forjada por Lacan a partir da utilização do nó borromeo, lhe permite distinguir no campo do gozo, duas modalidades completamente diferentes. Ele vai postular que a experiência analítica permite diferenciar um tipo de gozo ao que vai caracterizar como um gozo que se localiza fora do corpo, de outro tipo de gozo ao que, pelo contrário, tem que ser pensado como localizado no corpo[11].

Como entender essa repartição?

Comecemos pelo primeiro que ele vai denominar gozo fálico. É o gozo que transcorre entre simbólico e real, o que permite dar conta dos efeitos da entrada de alíngua no corpo vivo, e do que resulta a extração do gozo que habitaria dito corpo para se localizar nos bordes das zonas erógenas.

Então, por que Lacan o denomina fora do corpo?

Para entender essa frase temos que nos deter no modo em que Lacan começa o seguinte paragrafo:

O corpo se introduz na economia do gozo pela imagem, imagem do corpo. Foi daí que parti. A relação do homem, do que chamamos por esse nome, com seu corpo, se há algo que destaca que ele é imaginário, é o alcance que a imagem aí adquire[12].

Temos então que, graças a escritura do nó, podemos distinguir um gozo que transcorre entre simbólico e real (fora do imaginário), e que se deve distinguir de outro que transcorre entre imaginário e real (fora do simbólico).

Essa é a razão pela qual o gozo fálico-pulsional resulta um gozo localizado fora do corpo; quer dizer, um gozo que por estrutura tem uma lógica que resulta antinómica com a sustentação do imaginário corporal.

Não por nada, agrega Lacan, o objeto a foi identificado inicialmente na experiência analítica a partir de imagens de corpo fragmentado; quer dizer, como estilhaços de corpo.

É por isso que nesse contexto resultará chave a afirmação de Lacan a respeito de que o sintoma não se reduz ao citado gozo fálico.

Se o fio explicativo de todo o conto é dado pelo tema de que ao herói querem lhe arrebatar os olhos, não é o mesmo lê-lo como a representação do castigo sofrido pelo pai temido a causa da persistência das tendências infantis incestuosas, que situar a questão clave desde esta última perspectiva.

Os olhos enquanto órgãos da visão se separam do imaginário corporal quando se revela seu verdadeiro estatuto enquanto objeto da pulsão escópica ao serviço do gozo fálico. É de entrada o que põe em jogo o conto quando mostra ao advogado Coppelius na diabólica função de fazer saltar os olhos das órbitas sob o procedimento de excitá-los mediante a utilização de carvõezinhos ardentes e flamejantes… O próprio Freud, numa nota de rodapé, acrescenta que a esposa de Rank lhe fez notar as derivações significantes de dito nome: “coppela = copela (vejam as operações químicas a raiz das quais achou a morte o pai); coppo: a bacia do olho”.

Essa é a outra chave aportada por Freud que, como nos lembra Strachey, enquanto escrevia Das unheimlich, se encontrava terminando seu célebre “Além do Principio do Prazer”:

No inconsciente anímico, é possível, de fato, reconhecer-se o domínio de uma incessante compulsão à repetição das moções pulsionais, a qual, provavelmente, depende da mais íntima natureza das pulsões, e que é suficientemente forte para se impor ao principio de prazer,  conferindo um caráter demoníaco a certos aspectos da vida anímica[13].

O parceiro objeto e o parceiro sintoma

Como nos lembra Lacan no Seminário 10, “não em vão Freud insiste na dimensão essencial que dá o campo da ficção a nossa experiência do unheimlich”. Enquanto que na realidade do vivenciar esta é demasiado fugitiva, a ficção literária ao lhe dar mais estabilidade permite articular com mais precisão a estrutura em jogo.

Mas também ocorre como observa Freud que:

…para o escritor somos conduzíveis de uma maneira especial; mediante o estado emocional no qual ele nos coloca, por meio das expectativas que ele nos suscita, ele pode manobrar o processo de nossos sentimentos, ajustando-os, com êxito, de um lado para outro, podendo, a partir do mesmo tema, atingir, frequentemente, os efeitos mais variados[14].

Vale o seguinte exemplo:

Justo antes do trágico final do herói Nathaniel, Hoffman faz falar justamente a um professor de poesia e de retórica que, depois de tomar sua dose de rapé e de espirrar como corresponde, em um tom grave dirá:

“Honoráveis damas e cavalheiros …não se deram conta de qual é o quid do assunto? Tudo é uma alegoria…. Uma absoluta metáfora! Já me entendem! ¡Sapienti sat! (expressão latina que significa, a bom entendedor).

Se esclarece então que parece que a brincadeira macabra da qual tinha sido vítima Nathaniel, não tinha sido em vão, e que deixou sua marca especialmente nos homens do povoado.

Seu affaire com a bela autômata Olimpia em quem o herói tinha acreditado encontrar finalmente a parceira desejada de seu fantasma, produziu em muitos deles um singular efeito.

A partir dali, devido a que nenhum se sentiu a salvo de que pudessem lhes acontecer as mesmas desventuras, ao revés de suas tendências habituais começaram a buscar provas para verificar que não amavam a nenhuma boneca de madeira. Seguramente não tardaram em encontrá-las.

A não relação pode ter também efeitos vivificantes.

Quando Lacan afirma que o que intentou fazer com o nó é lhe dar outro corpo à singular e surpreendente intuição freudiana fundamental, nos deixa em custódia um verdadeiro filão.

Se para Freud tudo se sustentava na função do pai como o operador capaz de atar o amor ao agente da castração, para Lacan é a função do sinthoma o operador no qual se apoiar para ampliar os recursos com os quais cada falasser conta para sustentar o enlaçamento desse

Outro gozo que transcorre entre imaginário e real, frente ao irredutível dos embates do gozo fálico.

Nathaniel, não acreditou no sintoma.

Tradução: Iordan Gurgel – AME da Associação Mundial de Psicanálise – EBP (Escola Brasileira de Psicanálise)

 

O XXIII Encontro Brasileiro de Campo Freudiano agradece ao autor a disponibilização do texto para divulgação no Boletim Infamiliar.

 

Artigo originalmente publicado em: Vitale, Fernando. “Das Unheimliche, una indagación estética”. Dossier 100° aniversario de “Lo ominoso” (1919) de Sigmund Freud. IN: Virtualia n. 36, março 2019. Disponível online. URL:
http://www.revistavirtualia.com/articulos/822/dossier-1000-aniversario-de-lo-ominoso-1919-de-sigmund-freud/idas-unheimlichei-una-indagacion-estetica
 
*Fernando Vitale é psicanalista em Buenos Aires. AME da Associação Mundial de Psicanálise e da EOL (Escuela de Orientación Lacaniana). AE: 2017-2020.
 

[1] Freud, S., “O infamiliar”, em: Obras incompletas, Autentica, Belo Horizonte, 2019, p. 29.
[2] Lacan, J., O Seminário, Livro 23, O sinthoma, JZE, Rio de Janeiro, 2007, p. 47.
[3] Lacan, J., O Seminário, Livro 23, op. cit., p. 146.
[4] Lacan, J., O Seminário, Livro 10, A angústia, JZE, Rio de Janeiro, 2005, p. 51.
[5] Lacan, J., A angústia, op. cit., p. 56
[6] Miller, J.-A., Introdução ao Seminário X de Jacques Lacan, em Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, nº 43, 2005, Edições Eolia, SP, p.17.
[7] Freud, S., “O infamiliar”, op. cit., p.63.
[8] Miller, J.-A., Introdução ao Seminário X, op. cit., p. 57.
[9] Miller, J.-A., Introdução ao Seminário X, op. cit., p. 62.
[10] Lacan, J., O Seminário, Livro 10, op. cit., p. 285.
[11] Lacan, J.,“A Terceira”, Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, nº 61, 2011, Edições Eolia, SP, p.30.
[12] Lacan, J.,“A Terceira”, op. cit. p. 22.
[13] Freud, S., “O infamiliar”, op. cit., p. 79.
[14] Freud, S., “O infamiliar”, op. cit., p. 113.